...Leituras & Saberes! Como me sabe bem ler, ler, ler e saber! Saber que existem páginas repletas de letras que tomam formas e sentidos, que alimentam o imaginário e provocam explosões de Sabores!
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7.10.15
21.6.13
3.1.13
A grande corrida

O que fazem aqui estes rapazes? Estão à espera do início da grande corrida. Todos vestem calções e têm camisolas com números.
Estás a ver o rapaz com o número 15 na camisola? Chama-se Tiago. Os rapazes são todos altos e fortes, mas o Tiago é pequeno e franzino. Por isso, dizem-lhe:
— Não podes competir connosco. Nós somos altos e fortes, temos pernas compridas, e tu és pequeno e franzino, e tens pernas curtas. Nós conseguimos correr depressa, mas tu não consegues correr depressa. Como corres devagar, é melhor ficares sentado a observar-nos.
— Isso não é verdade — diz o Tiago. — Sou pequeno, mas consigo correr. Embora corra devagar, consigo correr na mesma.
Os rapazes observam o homem de chapéu branco, que segura uma bandeira preta e branca, e que está a olhar para o relógio que tem no pulso. De repente, o homem baixa a bandeira, sopra o apito e a corrida começa.
Há muitos rapazes a participar na corrida. Os rapazes empurram o Tiago e ele cai. Alguns dos rapazes até passam por cima dele! A corrida passa para a estrada, onde há camiões e carros, pessoas e bicicletas. Como se trata de um lugar perigoso, alguns dos concorrentes estão à espera de atravessar.
Consegues ver o Tiago? Está no fundo da fila, atrás de todos os outros.
Os rapazes atravessam a estrada e o Número 1 vai à frente. Um homem de bicicleta vai de encontro a ele e deita-o ao chão. Agora, o Número 1 está sentado na berma da estrada a segurar o tornozelo e, em vez de sorrir, está a chorar, porque já não pode correr mais. O Número 2 toma a dianteira.
Consegues ver o Tiago? Está no fim da fila. Os rapazes correm ao longo de um caminho que acompanha o rio. O Número 2 vai à frente, mas está demasiado perto do rio. O Número 3 corre para junto do Número 2 e estica o braço para o empurrar! O Número 2 cai ao rio e, embora consiga nadar, já não pode correr mais.
Agora, o Número 3 vai à frente. Os outros corredores seguem-no, mas alguns dos rapazes já estão cansados. Consegues ver o Tiago? Vem lá atrás, bem atrás de todos os outros corredores. Mas, embora corra devagar, continua a correr. De repente, o Número 3 pára, senta-se e descalça a sapatilha. A sapatilha tem um prego e o rapaz tem de tirar a meia e pôr um penso no pé. Não pode continuar a correr. Por isso, os Números 4 e 5 passam para a frente do pelotão. Como correm muito depressa, não conseguimos ver os outros corredores, e nem sequer conseguimos ver o Tiago.
Há nuvens negras no céu e os rapazes estão a olhar para elas. De repente, começa a chover muito. Os dois corredores da frente abrigam-se debaixo de uma árvore e deixam de ver os outros corredores. O Número 6 passa para a frente e o Tiago continua atrás de todos. Mas, embora corra devagar, continua a correr. De repente, aparece um cão com uma grande boca e dentes muito afiados, e o Número 6 tem de trepar a uma árvore e segurar-se com força. O cão salta e tenta mordê-lo. Para o Número 6, a corrida acaba aqui.
Agora, o Número 7 vai na vanguarda e todos o seguem. Quanto ao Tiago, continua no fim da fila. O Número 7 usa óculos, que estão a escorregar-lhe pelo nariz e que acabam por cair na relva. O rapaz pára para procurar os óculos, porque deixou de ver. Está sentado na relva, mas os outros rapazes correm muito depressa e não dão sinais de abrandar.
Como o Tiago não corre depressa, detém-se para procurar os óculos do Número 7. Quando os encontra, entrega-lhos.
— Toma os teus óculos — diz o Tiago.
— Obrigado — agradece o Número 7, que coloca os óculos.
Contudo, continua sem conseguir ver e tem de abandonar a corrida. Agora, o Número 8 vai à frente e os outros corredores vão atrás. Não se consegue ver o Tiago. O Número 8 chega junto de um portão e, em vez de o abrir, tenta saltá-lo. Só que, ao saltar, bate com o pé direito no cimo da grade. Neste momento, o Número 8 está sentado no chão, e tem a cabeça entre as mãos. Os outros rapazes abrem o portão e passam pelo Número 8 sem se deter para o ajudar. O Tiago aparece quando um dos rapazes está prestes a fechar o portão.
— Olá! — diz ele ao Número 8. — O que estás a fazer?
— Dói-me a cabeça! — queixa-se o rapaz.
O Tiago ajuda-o. Dá-lhe uma ligadura e o Número 8 coloca-a na cabeça. O Número 8 não pode correr mais. O Tiago continua a correr. Está cansado, tem as pernas curtas, mas continua a correr. O Número 9 vai na frente, mas não conseguimos ver os outros rapazes. O Número 9 está muito cansado e tem calor. Pára para comprar um gelado e uma garrafa de Coca-Cola. Senta-se debaixo de uma árvore e põe-se a saboreá-los. Como está cansado e afogueado, acaba por adormecer. Os outros corredores passam junto dele e riem-se.
— Vejam só! O Número 9 adormeceu! Não o acordem!
E continuam a correr. O Tiago chega junto do rapaz e, em vez de rir, tenta acordá-lo:
— Acorda! Lembra-te de que estás numa corrida!
— Não! — responde o Número 9. — Estou cansado e tenho calor. Não consigo correr mais.
O Número 10 tomou a dianteira, mas também ele está cansado e afogueado. Não se conseguem ver os outros corredores. Quando um autocarro pára na rua, para deixar entrar passageiros, o Número 10 entra no autocarro. O autocarro arranca e o rapaz senta-se e compra um bilhete.
— Como ninguém me vê — diz, a sorrir — posso ir aqui sentado. Assim, já não tenho calor nem me sinto cansado.
Mas o autocarro vai no sentido inverso do percurso da corrida e o Número 10 deixa de sorrir, porque acabou de ser eliminado. Vêem-se mais três corredores. Todos estão cansados e com calor. Contudo, correm depressa. De repente, deixam de ver as indicações e tomam um trilho diferente. Também eles ficam fora da corrida. Lá vem o Número 14. Tem calor e está cansado, mas corre depressa.
A sorrir, atravessa a rua, embora a luz do semáforo dos peões tenha ficado vermelha. Um polícia que está do outro lado da rua manda-o parar.
— Não vês o sinal vermelho? — pergunta ao Número 14.
Depois, tira um livro do bolso e pergunta-lhe:
— Como te chamas? Onde vives?
E eis que chega o Tiago. Como a luz do semáforo dos peões está verde, pode atravessar a rua. O Tiago passa pelo polícia e pelo Número 14 e chega em primeiro lugar! Apesar de ser pequeno e franzino, e de não conseguir correr depressa, chega em primeiro lugar! Na meta, todos o aplaudem:
O Tiago sorri de contente.
D. H. Howe
The big race
Oxford, Oxford University Press, 2001
(Tradução e adaptação)
19.12.12
Os doze irmãos
Em tempos idos, pensava-se que cada um dos Doze Dias de Natal, de 26 de Dezembro a 6 de Janeiro, funcionava como um prenúncio do que os doze meses do ano seguinte viriam a ser. As pessoas analisavam o tempo meteorológico desses doze dias e faziam previsões, jogos, trocavam histórias, e divertiam-se, com o intuito de que o novo ano fosse benéfico.
Esta história da República Checa recorda-nos que cada mês do ano é especial, e que o conjunto dos doze meses formam o círculo, ou ano. A mudança das estações reflete o ciclo da existência humana, começando pelo início da vida (solstício de inverno), e passando pela infância (primavera), a idade adulta (verão), a maturidade (outono), a velhice e a morte (de novo o inverno).
O destino das duas irmãs da história recorda-nos também que uma vida que respeita a Natureza contém as suas próprias recompensas, enquanto uma vida que a desrespeita pode acarretar consequências desastrosas.
Numa floresta longínqua, viviam uma viúva e duas raparigas.
Uma era a sua filha, Holena, e a outra era a sua enteada, Marusha.
Holena era feia e mimada, enquanto Marusha era bonita e tinha de desempenhar as tarefas todas. Era ela quem ia ao poço, todas as madrugadas, buscar água, quem esfregava e cozinhava, e quem fiava e tecia até ao anoitecer.
À medida que as raparigas iam ficando mais velhas, a reputação de Marusha como jovem bela e trabalhadora ia crescendo, enquanto a reputação de Holena como moça indolente aumentava. Em breve a viúva deu-se conta de que, a não ser que a enteada saísse de casa, ninguém iria casar com a preguiçosa Holena. Num dia de inverno rigoroso, a madrasta chamou Marusha e disse-lhe:
— A tua irmã quer violetas. Vai buscar-lhe algumas.
Era sua intenção que a enteada fosse devorada pelos lobos esfaimados que costumavam errar pela floresta.
— Mas onde vou eu encontrar violetas em pleno inverno? — exclamou Marusha, enquanto a empurravam para fora de casa, envergando ela apenas um fino vestido.
A tremer, devido ao vento agreste do norte, Marusha caminhou até ao cair da noite, cheia de medo do uivar dos lobos, que pareciam aproximar-se cada vez mais. Estava quase a desistir da busca, a deitar-se na neve e a adormecer para sempre, quando se apercebeu do cintilar de uma luz no cimo da colina. Então, cambaleou até à luz acolhedora na esperança de encontrar abrigo.
Contudo, quando Marusha atingiu o cume da encosta, recuou, espantada. A cena com que deparou era diferente de tudo o que presenciara até então, e parecia uma história dos tempos antigos.
Diante dela ardia uma enorme fogueira. À volta, sentados em silêncio num círculo de doze pedras, doze homens fitavam-na. Também eles não se pareciam com nenhum homem que Marusha vira antes. Três eram idosos, com longas barbas brancas, e vestiam de azul-‑escuro. Os três vestidos de púrpura eram de meia-idade e outros três vestiam de escarlate. Os três mais jovens vestiam de branco e verde. Na pedra maior de todas, estava sentado o mais velho de todos, com um bordão na mão.
Marusha fez-lhe uma vénia respeitosa e pediu:
— Por favor, senhor, será que posso aquecer-me junto da fogueira?
O velho respondeu numa voz grave:
— Quem és tu, minha filha, e porque caminhas pela floresta à hora a que os lobos vagueiam?
Marusha falou-lhe das violetas e o velho disse:
— Vieste ter ao lugar certo, pois somos os Doze Irmãos do ano. Eu sou Janeiro, chefe de todos os outros. Não posso dar-te violetas, mas o meu irmão Março pode.
O velho Janeiro levantou-se e cedeu o lugar a um dos jovens de branco e verde. Mal este se sentou no lugar do chefe, a neve em torno deles derreteu. Despontaram, então, árvores e violetas.
— Depressa, leva-as contigo! — ordenou o jovem Março, com uma voz tão penetrante como o vento.
A rapariga colheu as violetas e, depois de lhe agradecer, correu de volta para casa.
A viúva olhou, incrédula, para as flores de cor púrpura que a enteada trazia nas mãos.
— Onde encontraste violetas em Janeiro? — quis saber.
— Acolá, na colina — respondeu a rapariga.
Uns dias mais tarde, a viúva tentou um novo estratagema. Desta vez disse:
— A tua meia-irmã precisa de morangos. Vai e não voltes sem eles!
E empurrou Marusha para fora de casa, sem que esta tivesse os sapatos calçados. A madrasta achava que, apesar de ter sido possível encontrar algumas violetas por entre a neve, não haveria decerto morangos nenhuns.
E a rapariga regressou para junto das figuras silenciosas que circundavam a fogueira na colina. Os Doze Irmãos escutaram em silêncio o seu pedido e, de novo, o velho Janeiro pediu a um irmão mais jovem que tomasse o seu lugar. Mal Junho, vestido de escarlate, se sentou no lugar do chefe, espalhou-se pela colina um Verão glorioso. As abelhas começaram a zumbir em torno das flores brancas dos morangueiros, que logo desabrocharam e originaram frutos maduros.
— Leva os que quiseres — disse Junho, soltando uma gargalhada alegre.
Marusha colheu os frutos e agradeceu a Junho a sua bondade. Quando regressou a casa, deu os morangos a Holena, que os comeu avidamente.
— E, já agora, onde encontraste estes? — perguntou a viúva, com o olhar desconfiado.
— Sob as árvores do abrigo da montanha — foi tudo o que Marusha lhe respondeu.
Alguns dias mais tarde, Holena pediu maçãs à mãe, que enviou a enteada em busca delas, sem sequer um lenço para proteger-lhe a cabeça. O vento soprava ainda mais fortemente e a neve estava cheia de cristais de gelo. À medida que caminhava com custo, Marusha tentava não prestar atenção aos olhos brilhantes dos lobos por entre as árvores escuras. Quando chegou ao topo da colina, pela terceira vez, pediu de novo ajuda aos Doze Irmãos. E, de novo, Janeiro cedeu o seu lugar, desta vez ao magnífico Setembro, vestido de púrpura. De repente, ei-los rodeados pelo Outono. As folhas ficaram de cor laranja, amarela e vermelha, e uma macieira carregou-se de frutos.
— Abana-a, minha filha — encorajou-a Setembro, com um sorriso doce e uma voz madura.
Marusha abanou a árvore e caíram duas maçãs perfeitas. Depois de agradecer a Setembro a sua amabilidade, a rapariga levou as maçãs para casa. Holena engoliu as maçãs num ápice e pediu mais, pois tinha-as achado ainda mais deliciosas do que os morangos. Enquanto a viúva congeminava novas formas de se livrar da enteada, Holena pediu à mãe:
— Mãe, empresta-me o teu melhor casaco de pele e as tuas luvas. Tenho a certeza de que a Marusha guarda a maior parte da fruta para ela e quero ir procurar o seu esconderijo.
Depois de muito protestar, a viúva acabou por aceder ao desejo da filha. Holena embrulhou-se no casaco de pele com carapuço e saiu de casa. A arfar, e com o nariz vermelho do frio, atingiu, por fim, o topo da colina. Sem sequer cumprimentar os Doze Irmãos, ou pedir-lhes permissão, aproximou-se da fogueira para se aquecer.
O velho Janeiro perguntou:
— Quem és tu, minha filha, e o que queres de nós?
Holena sacudiu a cabeça e respondeu:
— O que eu quero não é da tua conta, velho tonto!
Janeiro, com a barba branca cheia de gelo, levantou-se, zangado, e lançou um grito que mais parecia o prolongamento dos ventos sibilantes do inverno. Holena caiu de costas, aterrorizada. Mal o velho volteou o seu bordão em torno da cabeça da rapariga, começaram a cair enormes flocos de neve. Holena fugiu do círculo de pedras e foi em busca do lugar de onde viera. Mas os flocos tinham coberto as suas pegadas e ela não conseguia encontrar o caminho. Enquanto fugia da raiva do velho, a neve ia-se acumulando em seu redor. Acabou por cair num buraco fundo, que a soterrou.
Em casa, a viúva aguardava, cada vez mais ansiosa, o regresso da filha. Vestiu o seu segundo melhor casaco de pele, calçou as segundas melhores luvas, e foi em busca de Holena. Como a fúria de Janeiro ainda não tinha abrandado, a tempestade de neve durou a noite inteira e nunca mais ninguém viu a viúva ou a filha.
Marusha continuou a ser diligente: fez o jantar, deu de comer à vaca e encheu o fuso de linha. Quando a madrasta e a meia-irmã não voltaram à noite, foi à janela ver o tempo: a neve tinha cessado e as estrelas cintilavam no céu limpo, no silêncio da noite. Curiosamente, não sentia medo ou solidão, porque sabia que os Doze Irmãos tomavam conta do ano.
Viveu sempre com as bênçãos deles no seu coração e, quando se casou e foi mãe, ensinou os filhos a ver cada mês como um tio, com diferentes prendas para oferecer, e a agradecer sempre as graças próprias de cada estação do ano.
Caitlín Matthews; Helen Cann
Fireside Stories
Bath, Barefoot Books, 2007
(Tradução e adaptação)
18.12.12
Leituras de férias
Pousei o livro, fechei os olhos,
queria imaginar este novo mundo,
construí-lo na minha mente...
Que livro está a transformar as tuas férias de Natal?
Para que mundo te sentiste transportado(a)?
Como são as tuas leituras?
Escreve aqui ou responde por e-mail...
Escreve aqui ou responde por e-mail...
(blog@dpedro.net)
13.12.12
11.12.12
Quero saber
Quero Saber: A revista que desperta a mente para assuntos tão essenciais como os avanços da tecnologia, a importância do ambiente, os segredos do corpo humano, a história da humanidade, os mistérios do espaço e muitos, muitos outros.
Todos os meses, a Quero Saber faz luz sobre os mistérios que despertam a curiosidade e fazem evoluir a humanidade.
A Revista está na Biblioteca !
Está na hora de aproveitar para ler e fazer muitas descobertas !
Basta clicar neste sumário para aceder ao Site da revista Quero Saber.
27.11.12
11.11.12
8.11.12
O casamento do sr. Dióspiro e da sra. Noz
No Outono há nozes, castanhas, dióspiros, romãs, uvas, maçãs, avelãs e azeitonas. Também há muita chuva e trovoada.
A dona Noz é muito refilona e chora muito por estar naquela casca sem saída.
Num dia de Novembro, o senhor Dióspiro ouviu um enorme rebuliço e ajudou-a a sair da casca. Quando conseguiu abri-la, a primeira coisa que lhe disse foi:
- Cuidado, D.a Noz, porque há muitos animais, especialmente os roedores e aves que a podem comer ou esmagar.
- Muito obrigado pelos conselhos. Quem tenho o prazer de conhecer?
- Sr. Dióspiro, ao seu dispor.
- Podia-me refrescar um pouco? É que passei o Verão escondida na minha casca dura!...
- Com certeza! É um prazer!
Em breve tornaram-se bons amigos. Um certo dia foram jantar a um restaurante só para pares românticos e, quando se iam embora, tornaram-se namorados.
Os pais deles, que já eram casados há muito tempo, fizeram uma reunião.
- Será que os devíamos casar? - perguntaram entre si.
- Sim! Boa ideia! - acharam todos.
- E em que dia?
- No dia de S. Martinho, claro. A ementa constará de castanhas assadas, a estalar.
E nesse dia casaram-se e lá estiveram: o padre Azeitona que realizou o casamento, a família Avelã, as irmãs Castanhas, a princesa Romã, o grande cacho de Uvas e a distraída Maçã.
A Chuva e a Trovoada estiveram a espreitar pela porta da igreja.
Eles tiveram frutos e ficaram felizes para sempre!
Adaptado e reinventado/Vaz Nunes 2002
29.10.12
Livro fechado
Era uma vez um livro.
Um livro fechado.
Tristemente fechado.
Irremediavelmente
fechado.
Nunca ninguém o abrira, nem sequer para ler as primeiras linhas da primeira
página das muitas que o livro tinha para oferecer.
Quem o comprara trouxera-o para casa e, provavelmente insensível ao que o livro
valia, ao que o livro continha, enfiara-o numa prateleira, ao lado de muitos outros.
Ali estava.
Ali ficou.
Um dia, mais não podendo, queixou-se:
— Ninguém me leu. Ninguém me liga.
Ao lado, um colega disse:
— Desconfio que, nesta estante, haverá muitos outros como tu.
— É o teu caso? — perguntou, ansiosamente, o livro que nunca tinha sido aberto.
— Por sinal, não — esclareceu o colega, um respeitável calhamaço.
— Estou todo
sublinhado. Fui lido e relido. Sou um livro de estudo.
— Quem me dera essa sorte — disse outro livro ao lado, a entrar na conversa.
—
Por mim só me passaram os olhos, página sim, página não... Mas, enfim, já prestei para
alguma coisa.
— Eu também — falou, perto deles, um livrinho estreito.
— Durante muito tempo,
servi de calço a uma mesa que tinha um pé mais curto.
— Isso não é trabalho para livro — estranhou o calhamaço.
— À falta de outro... — conformou-se o livro estreitinho.
Escutando os seus companheiros de estante, o livro que nunca fora aberto sentiu
uma secreta inveja. Ao menos, tinham para contar, ao passo que ele...
Suspirou.
Não chegou ao fim do suspiro, porque duas mãos o foram buscar ao aperto da
prateleira. As mãos pegaram nele e poisaram-no sobre os joelhos.
— Tem bonecos esse livro? — perguntou a voz de uma menina, debruçada sobre o
livro, ainda por abrir.
— Se tem! Muitos bonecos, muitas histórias que eu vou ler-te — disse uma voz
mais grave, a quem pertenciam as mãos que escolheram o livro da estante.
Começou a folheá-lo e, enquanto lhe alisava as primeiras páginas, foi dizendo:
— Este livro tem uma história. Comprei-o no dia em que tu nasceste. Guardei-o
para ti, até hoje. É um livro muito especial.
— Lê — exigiu a voz da menina.
E o pai da menina leu.
E o livro aberto deixou que o lessem, de ponta a ponta.
Às vezes, vale a pena esperar.
António Torrado
www.historiadodia.pt
25.10.12
12.12.11
A última árvore
Nos arredores da cidade, viviam um rapaz e uma rapariga. O guarda-florestal visitava-os com frequência e levava-lhes sempre algo do bosque.
Às vezes, as duas crianças acompanhavam-no. Recolhiam folhas de árvores, agulhas de pinheiro e pinhas. Desenhavam-nas, em seguida, e penduravam os desenhos nas paredes da sala de estar.
O velho guarda contava-lhes muitas histórias. E, assim, as crianças foram aprendendo que os abetos cresciam nas terras mais secas, que os pinheiros podem viver na areia, e que o plátano sofre com o frio do Inverno. Também ficaram a saber que a bétula se desenvolve a norte, nas terras frias, enquanto o cedro necessita do clima temperado do litoral.
— O carvalho pode viver cem anos — dizia-lhes o guarda, enquanto caminhava pela floresta. — Os povos antigos consideravam-no uma árvore sagrada. Mas o cedro pode viver ainda mais anos. O Rei Salomão construiu o templo com cedros. A madeira destas árvores é muito resistente.
As crianças puseram-se a contemplar um cedro gigantesco cuja copa ultrapassava a das outras árvores.
— Talvez essa longevidade se deva à resina — continuou o guarda-florestal. — A resina torna a madeira mais dura. Os nossos antepassados esfregavam os pergaminhos com resina de cedro para que o conteúdo dos documentos resistisse muitos anos.
Em seguida, deteve-se um momento.
— Antigamente, os cedros cresciam junto ao Mediterrâneo. Na Arábia e no norte de África, havia bosques de cedros. Mas os homens acabaram com eles.
♦♦♦♦
Um dia, o Presidente da Câmara foi visitar as crianças e viu os desenhos que tinham feito e que cobriam todas as paredes da sala.
— Esta é a melhor maneira de conhecer a floresta — comentou, satisfeito.
E perguntou ao guarda-florestal:
— É preciso construir uma ponte nova na cidade. Terás madeira suficiente?
O guarda abanou a cabeça:
— Os rebentos são ainda muito jovens e uma ponte precisa de muita madeira. Temos que esperar.
O presidente concordou e disse às crianças:
— A floresta ajuda-nos a viver. Por muita madeira que utilizemos, a mata nunca desaparece. E sabem porquê?
As crianças disseram que não.
O presidente sorriu.
— Porque quem abater uma árvore tem de plantar outra. Há já muitos anos que actuamos desta forma.
O velho guarda concordou.
— É verdade, embora nem sempre tenha sido assim.
Depois de parar para encher o cachimbo e acendê-lo com um ramo fino, contou uma história.
♦♦♦♦
Há muitos, muitos anos, viviam duas crianças nos arredores da cidade. A menina chamava-se Lia e o menino Saïd. Pareciam-se muito convosco. Viviam numa cabana e percorriam, juntos, o bosque.
Com o passar do tempo, acabaram por saber reconhecer os vários tipos de árvores. Aprenderam que as agulhas dos pinheiros são mais claras do que as dos abetos, e que pendem dos ramos aos pares. Descobriram também que as agulhas dos abetos não duram eternamente: caem passados alguns anos e logo crescem outras novas. E descobriram que as agulhas dos cedros, de tom verde-escuro como as dos abetos, nunca caem.
Saïd e Lia estavam assombrados. Que diferentes eram as árvores umas das outras! Então, começaram eles próprios a plantar árvores. Todos os dias iam à floresta buscar pequenas árvores, que cresciam, selvagens, por entre os troncos grandes, e plantavam-nas no seu jardim. Estavam contentes, porque se sentiam como professores numa escola de árvores, que faziam com que os alunos não crescessem “torcidos”. À tarde, quando o sol tocava no horizonte, enchiam uns grandes regadores e davam de beber aos seus protegidos.
Um dia, ao entardecer, as crianças viram três homens atravessar a ponte. Os três forasteiros foram à praça do mercado, e nela depuseram os seus sacos. Neles traziam pesados colares de ouro e adornos brilhantes. Por todo o lado circularam pulseiras com âmbar incrustado, pérolas, corais e nácar. As pessoas estavam curiosas. O que quereriam os comerciantes em troca daqueles tesouros?
— Nada de especial — responderam eles. — Só queremos madeira. Muita. Toda a que vocês conseguirem arranjar. Se trouxerem muita madeira, ficam com muitas jóias.
E acrescentaram, sorrindo:
— Também pensámos nas crianças. Temos bombons, chocolate, caramelos e rebuçados.
As pessoas contemplavam aqueles adornos tão caros e sentiam-se enfeitiçadas. Durante toda a noite, beberam, dançaram e cantaram sem parar com os forasteiros.
No dia seguinte, começaram a trabalhar. E as árvores foram caindo por terra, umas atrás das outras. Os golpes dos machados ressoavam por toda a floresta. E os três forasteiros estavam contentes. Repartiam ouro e prata e levavam a madeira consigo.
As semanas foram passando. Começou a haver clareiras no bosque e algumas colinas estavam já despidas. Mas ninguém se dava conta disso. Como ninguém tinha tempo para plantar novos rebentos, a terra tornou-se áspera e seca. Os riachos tinham pouca água e só chovia de vez em quando.
À medida que o bosque ia ficando despido, as arcas das pessoas enchiam-se de ouro, prata, pedras preciosas e bijutarias. Os pescoços das mulheres dobravam-se com o peso dos colares e os dentes das crianças estavam amarelos, azuis, verdes e pretos de tantas guloseimas comerem.
Havia já muito que Lia e Saïd tinham comido os seus caramelos. Agora, todas as noites, recolhiam o orvalho em grandes panos que estendiam no chão. Com o orvalho e a pouca água que saía das fontes, regavam as arvorezinhas jovens do seu jardim. No lugar onde dantes existia a floresta, agora o solo estava árido. Se acontecesse chover, logo se evaporava a água. Os pássaros não tinham sombras e caíam, extenuados do calor, por terra. Mas todos continuavam a cortar madeira…
Um dia, encontraram-se todos em redor de uma grande árvore. Iam começar a cortá-la quando se deram conta de que se tratava do velho cedro. Toda a floresta que outrora o rodeara tinha desaparecido por completo. O grande cedro era a última árvore que lhes restava. Por detrás das colinas despidas, já se avistava o deserto.
As pessoas assustaram-se.
— Destruímos a nossa floresta! — gritaram. — O que vamos fazer agora?
Ninguém sabia. A terra tinha secado e estava toda gretada. Um vento suave trouxe alguns grãos de areia até eles. E as areias aproximavam-se cada vez mais e estenderam-se por todos os arredores. Chegaram até junto do cedro e ameaçavam invadir a cidade.
Quando as pessoas arrancaram os colares de pérolas do pescoço, viram que se tratava de bolas de vidro! Abriram os cofres e viram que o ouro se tinha convertido em metal vulgar e a prata em mica. Ficaram todos enfurecidos. Esperaram pelos forasteiros, mas estes não regressaram.
Os comerciantes contemplavam, à distância, o que restava da floresta e riam-se. Tinham madeira suficiente para construir muitos barcos e não se importavam que a cidade se afundasse na areia. Viraram costas e desataram a fugir. Mas a fuga não foi tarefa fácil, porque havia areia por todo o lado. De repente, começaram a afundar-se numa duna. Afundaram-se cada vez mais e, em breve, nada mais restava deles… a não ser um chapéu.
— O que havemos de fazer? — perguntavam as pessoas, ansiosas.
— Como podemos salvar-nos do deserto?
Então, Lia e Saïd disseram:
— Precisam de voltar a plantar árvores. No nosso jardim, crescem árvores de todas as espécies. Podemos transplantá-las. Começaremos com pinheiros e cedros, porque a areia não os impede de crescer. Quando a terra estiver a salvo das areias, traremos as outras árvores e plantámo-las junto deles. Recolheremos as suas sementes e voltaremos a enterrá-las no solo. Com o passar do tempo, teremos uma pequena floresta. O orvalho e a chuva voltarão a cair. Mas ainda falta muito tempo para que isso aconteça. Primeiro, enquanto houver água na fonte, temos de regar as árvores à noite.
As pessoas ouviram as crianças com admiração e fizeram o que elas tinham aconselhado. Trabalharam dia e noite e, por fim, voltou a chover.
E, depois de muitos meses, todos puderam contemplar uma pequena floresta.
Os habitantes respiraram de alívio. A cidade estava salva! A floresta crescia!
Um dia, chegaram junto da cabana de madeira que ficava situada no extremo da cidade. Acordaram Lia e Saïd e levaram-nos até à floresta. Uma vez lá, agradeceram-lhes e prometeram cuidar da floresta com carinho. Comeram, beberam e dançaram em torno do cedro.
E, até hoje, sempre cumpriram a sua promessa.
♦♦♦♦
O velho guarda-florestal despejou o cachimbo. O presidente contemplou a fogueira, pensativo.
As duas crianças, que estavam em silêncio, perguntaram ao guarda:
— Quem eram o Saïd e a Lia? Conheceste-os?
O guarda-florestal sorriu.
— Claro que conheci. Eram os meus avós.
Štĕpán Zavřel
El último árbol
Madrid, Ediciones SM, 1988
(Tradução e adaptação)
4.11.11
O pequeno falcão

Mal abro os olhos, a primeira coisa que vejo é o céu e a primeira coisa que sinto é o vento. O céu azul afaga-me com os seus dedos ventosos e o sol quente seca as minhas penas molhadas. Ouço o ruído de um ovo a estalar junto da minha própria casca partida. Um bico curvo, sôfrego de ar, faz a sua aparição. O ovo estala de novo e vejo uma cabecita húmida e pegajosa. É um filhote que luta para sair da casca, logo seguido de outro. São os meus irmãos.
Um som de asas esvoaçantes indica que a nossa mãe regressou ao poleiro com comida no bico. Como cheira bem, bradamos todos por comida. Embora estejamos todos igualmente esfomeados, como sou a cria maior, sou o primeiro a ser alimentado.
Mal os apanham, os nossos pais trazem-nos ratos e murganhos, que cortam em pedacinhos para os comermos melhor. Estamos todos a crescer depressa, mas eu levo a dianteira aos meus irmãos.
O nosso poiso é um parapeito que fica pertinho do céu. Os dedos suaves do vento agitam as nossas penas e o sol aquece o nosso dorso. Alinhamo-nos num buraquinho em forma de folha de trevo, situado no alto do muro da escola. Conseguimos ver o recreio, as pastagens da aldeia, e a própria estrada. Quando esticamos e batemos as asas, tal como os nossos pais fazem, as crianças que estão no recreio olham para cima e apontam:
— Olhem os falcões bebés! Vejam as suas penas fofinhas!
Certa tarde, depois de as aulas acabarem, ouvimos o som de uns passos que se dirigem para nós e arrastamo-nos para a parte de trás do poleiro. Uma sombra paira sobre o ninho e desatamos a piar. Esta criatura não é nenhum dos nossos pais, porque não tem o seu odor acre. Dou-lhe bicadas e arranho-a com as minhas garras. A figura faz um barulho esquisito e sou agarrado por duas mãos. Depois, sou levado para longe de casa, envolto em escuridão.
Quando abrem o saco onde enfiaram a minha cabeça, a luz ofusca-me. Tento voar, mas vou de encontro a uma grade e caio desamparado, envolto por uma nuvem de penas. Onde está a minha casa, onde estão os meus pais e os meus irmãos? Onde estão o vento e o céu? Volto a lançar-me de encontro à grade e caio redondo no chão.
— Quero que sejas meu e de mais ninguém! — diz uma voz.
Não percebo o que se passa. Conheço este rapaz do recreio. É mais alto do que os outros alunos e atira-os muitas vezes ao chão. Nunca se ri e nunca brinca com os colegas. Quando me traz comida, não a corta de forma a eu poder comê-la. Tenta empoleirar-me na sua mão enluvada, mas fico aninhado a um canto da gaiola. Começo a emagrecer, fico mais fraco, e tenho saudades de casa. Chamo pelos meus pais.
O rapaz cobre-me a cabeça e sinto os dedos do vento nas minhas penas. Depois tira-me o capuz e bato as asas, tentando voar. Uma rapariga vê-nos e grita:
— Dan Foster, roubaste o nosso falcão!
— Deixa-me em paz! — grita ele, em jeito de resposta.
Mas a rapariga é corajosa e não desiste.
— O que lhe aconteceu? — admira-se. — Está tão magrinho!
— Quero ficar com ele — diz o rapaz. — Quero ter algo que seja só meu!
— Não podes aprisionar um animal selvagem. Ou o pões de volta no ninho ou ele morre — explica a rapariga.
— Não quero que ele morra… — diz o rapaz, numa voz suave e meiga.
— Se o puseres de volta, não te denuncio — promete a rapariga.
Já consigo ouvir o barulho do recreio! Estou quase a chegar a casa! As outras crianças rodeiam-nos.
— É o falcão! — chamam. — O Dan Foster encontrou o nosso falcão!
Cheguei a casa. Os meus irmãos, que entretanto cresceram mais do que eu, silvam, porque já não me conhecem. Mas, quando emito o nosso piar habitual, deixam-me logo entrar no ninho. Vão até ao parapeito, batem as asas e voam sobre o recreio.
O céu afaga-me com os seus dedos de vento e agita as minhas penas. Estou sozinho no buraco do muro da escola. Ouço um bater de asas e vejo a minha mãe a mergulhar sobre mim para me alimentar. Sei que estou seguro, porque ela não se esqueceu do seu primeiro filhote.
Em breve, as minhas asas voltam a ficar fortes e macias. A minha penugem inicial já se foi, mas não saio do parapeito pertinho do céu. Não quero deixar a minha casa. No recreio, as crianças olham para cima e dizem entre si:
— O falcão tem medo de voar.
O meu pai está empoleirado num poste do lado de lá do recreio e tem um musaranho para mim no bico. Tenho fome e chamo por ele, mas ele mantém-se imóvel. O meu irmão aterra numa árvore e pede comida. Bato as asas, desesperado. Tenho de conseguir voar!
De repente, sinto a densidade do ar e os dedos do vento a segurar-me. Lanço-me na direcção do poste e vejo que consigo voar! Arranco a comida do bico do meu pai e oiço as crianças a rir e a aplaudir no recreio em baixo.
O céu e o vento são meus amigos. Bato as asas para melhor poder planar no céu azul, e o meu olhar apurado procura ratos, enquanto flutuo nos dedos do vento. No recreio da escola, vejo o rapaz, Dan Foster, e o seu novo amigo, que olham para cima, excitados.
14.6.11
O cego e o caçador
Era uma vez um cego, que vivia com a irmã numa cabana, numa aldeia na orla da floresta. Era um homem muito esperto. Embora os seus olhos nada vissem, parecia saber mais acerca do mundo do que as pessoas cujos olhos eram penetrantes como dardos. Costumava sentar-se no exterior da cabana a falar com quem por ali passava. Se tivessem problemas, perguntavam-lhe o que fazer e ele dava-lhes sempre bons conselhos. Se queriam saber alguma coisa, as suas respostas eram sempre as corretas.
As pessoas abanavam a cabeça, admiradas:
― Homem cego, porque és tão sábio?
O cego sorria e respondia:
― Porque vejo com os ouvidos.
Um dia, a irmã do cego apaixonou-se por um caçador de outra aldeia. Em breve casaram. Quando a festa acabou, o caçador veio viver com eles. Contudo, não tinha paciência para o cunhado. Perguntava:
― De que serve um homem sem olhos?
A mulher retorquia:
― Mas, marido, o meu irmão sabe mais acerca do mundo do que as pessoas que vêem.
O caçador sorria:
― E o que pode saber quem vive na escuridão?
Todos os dias, o caçador ia até à floresta com o arco e as flechas. Sempre que regressava à tardinha, o cego pedia-lhe:
― Leva-me contigo amanhã.
Mas o caçador não queria:
― De que me serve um homem sem olhos?
Dias e meses se passaram e o cego pedia sempre:
― Leva-me contigo amanhã.
E o caçador sempre se negava a aceder ao pedido.
Uma noite, porém, estava bem-disposto. Tinha regressado com uma gazela bem gordinha. A mulher tinha preparado o jantar e, depois da refeição, o caçador disse ao cego:
― Amanhã, podes vir comigo.
Na manhã seguinte, partiram ambos. O caçador conduzia o cego pela mão e andaram durante horas entre as árvores da floresta. De repente, o cego parou e puxou pela mão do cunhado.
― Psiu, está ali um leão!
O caçador olhou em redor mas nada viu.
― Está ali um leão, mas não há problema. Já comeu e adormeceu. Não nos fará mal.
Continuaram a andar e viram, de facto, um leão a dormir debaixo de uma árvore. Depois de passarem por ele, o caçador perguntou:
― Como sabias?
― Porque consigo ver com os ouvidos.
Andaram durante algumas horas e, de novo, o cego parou e puxou pela mão do cunhado.
― Psiu, está ali um elefante!
O caçador olhou em redor e nada viu.
― Está ali um elefante, mas não há problema. Está a tomar banho. Não nos fará mal.
Continuaram a andar e passaram pelo elefante, que tomava um banho de lama num charco. Depois de passarem por ele, o caçador perguntou:
― Como sabias do elefante?
― Porque consigo ver com os ouvidos.
Continuaram floresta adentro até chegarem a uma clareira. O caçador disse:
― Vamos colocar aqui as armadilhas.
E montou uma armadilha, ensinando o cego a montar outra. Quando estavam ambas prontas, disse:
― Voltamos amanhã para ver o que apanhámos.
E regressaram à aldeia.
Na manhã seguinte, levantaram-se cedo e encaminharam-se para a floresta. O caçador ofereceu-se para guiar o cunhado, mas o cego não quis.
― Já conheço o caminho ― explicou.
O cego ia à frente, sem pôr o pé numa raiz ou tropeçar num tronco de árvore. Também não se desviou do caminho uma só vez. Caminharam durante horas até chegarem à clareira onde tinham montado as armadilhas.
O caçador viu logo que havia uma ave em cada uma delas. O seu pássaro era pequeno e cinzento, mas o pássaro do cunhado era uma autêntica beleza, com penas verdes, vermelhas e douradas. O homem disse:
― Senta-te aqui. Cada um de nós apanhou um pássaro e vou tirá-los das armadilhas.
O cego sentou-se enquanto o cunhado desmontava as armadilhas. Enquanto o fazia, pensava para consigo: “Um homem sem olhos não vai notar a diferença.”
O que fez ele, então? Deu o pássaro pequeno ao cego e ficou com o grande para si. O cego pegou no pássaro cinzento, levantou-se e encaminhou-se para casa. Enquanto caminhavam, o caçador perguntou:
― Se és tão esperto e vês com os ouvidos, responde-me: porque há tanta ira, ódio e guerra no mundo?
O cego respondeu:
― Porque o mundo está cheio de gente como tu, que rouba o que não é seu.
De repente, o caçador sentiu-se muito envergonhado. Tirou o pássaro cinzento das mãos do cunhado e deu-lhe o pássaro colorido.
― Desculpa ― pediu.
E enquanto caminhavam, o caçador perguntou:
― Se és tão esperto e vês com os ouvidos, responde-me: porque há tanto amor, bondade e gentileza no mundo?
E o cego respondeu:
― Porque o mundo está cheio de gente como tu, que aprende com os seus erros.
E depois de muito andarem, chegaram finalmente à aldeia.
De ali em diante, sempre que o caçador ouvia alguém perguntar: “Homem cego, porque és tão esperto?”, punha a mão no ombro do cunhado e respondia:
― Porque vê com os ouvidos e ouve com o coração.
recontado por Hugh Lupton
Tales of Wisdom and Wonder
Bath, Barefoot Books, 1998
(Tradução e adaptação)
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