29.10.12

Livro fechado





Era uma vez um livro.
Um livro fechado. 
Tristemente fechado.
Irremediavelmente fechado. 
Nunca ninguém o abrira, nem sequer para ler as primeiras linhas da primeira página das muitas que o livro tinha para oferecer. Quem o comprara trouxera-o para casa e, provavelmente insensível ao que o livro valia, ao que o livro continha, enfiara-o numa prateleira, ao lado de muitos outros. 
Ali estava. 
Ali ficou. 

Um dia, mais não podendo, queixou-se:
 — Ninguém me leu. Ninguém me liga. 
Ao lado, um colega disse: 
— Desconfio que, nesta estante, haverá muitos outros como tu. 
— É o teu caso? — perguntou, ansiosamente, o livro que nunca tinha sido aberto. 
— Por sinal, não — esclareceu o colega, um respeitável calhamaço. 
— Estou todo sublinhado. Fui lido e relido. Sou um livro de estudo. 
— Quem me dera essa sorte — disse outro livro ao lado, a entrar na conversa. 
— Por mim só me passaram os olhos, página sim, página não... Mas, enfim, já prestei para alguma coisa. 
— Eu também — falou, perto deles, um livrinho estreito. 
— Durante muito tempo, servi de calço a uma mesa que tinha um pé mais curto.
 — Isso não é trabalho para livro — estranhou o calhamaço. 
— À falta de outro... — conformou-se o livro estreitinho. 
Escutando os seus companheiros de estante, o livro que nunca fora aberto sentiu uma secreta inveja. Ao menos, tinham para contar, ao passo que ele... 
Suspirou. 
Não chegou ao fim do suspiro, porque duas mãos o foram buscar ao aperto da prateleira. As mãos pegaram nele e poisaram-no sobre os joelhos.
— Tem bonecos esse livro? — perguntou a voz de uma menina, debruçada sobre o livro, ainda por abrir. 
— Se tem! Muitos bonecos, muitas histórias que eu vou ler-te — disse uma voz mais grave, a quem pertenciam as mãos que escolheram o livro da estante. 
Começou a folheá-lo e, enquanto lhe alisava as primeiras páginas, foi dizendo: 
— Este livro tem uma história. Comprei-o no dia em que tu nasceste. Guardei-o para ti, até hoje. É um livro muito especial. 
— Lê — exigiu a voz da menina. 
E o pai da menina leu. 
E o livro aberto deixou que o lessem, de ponta a ponta. Às vezes, vale a pena esperar. 




António Torrado 
www.historiadodia.pt



Sem comentários:

Enviar um comentário